Entenda o que é Democracia, antes de idolatrá-la

Na democrática Athenas a assembleia do povo alcançou a soberania e decidia pela condenação ou não dos indivíduos, principalmente sob Péricles. Contudo, quem controla as massas, controla a soberania popular, e Péricles era perito nisso e usou de tal estratagema para ostracizar Tucídides, seu maior inimigo político e na arte retórica e oratória. O mesmo fizeram os inimigos de Sócrates, que de sua parte não fazia inimigos, mas estes o adotavam como personagem a odiar, seja por inveja, seja pelo anúncio do deus Apolo, através do Oráculo de Delfos, de que o homem mais sábio do mundo então era “um tal de Sócrates”. O fato é que usaram dessa manipulação das massas para condenar Sócrates à morte, por seis votos a mais a favor de tal pena, e assim ocorreu, como sábio tomando cicuta, conforme lhe ordenou a “soberania popular”.

Já em Roma, a democracia permitirá o assassinato de Jesus Cristo, condenado por pressão das massas, controladas por terceiros interessados em sua execução, colando-se a “soberania popular” acima da ordem jurídica e da justiça. Também houve colaboração de juízes covardes, isto é fato, assim como também é fato que a vinda de Cristo se dá para que êste sirva de “cordeiro de Deus”, ou seja, de sacrifício para o perdão dos nossos pecados e salvação de nossas almas, mas não se altera o também fato de que um mesmo sistema foi o instrumento que permitiu esse rumo das coisas (o “julgamento” de Cristo, sua condenação e crucificação).

O nome do sistema que permite desde sempre essas aberrações e sua captura por demagogos e populistas de toda espécie, via manipulação das massas, ou sua compra direta, é Democracia. O mesmo sistema cujo nome virou palavra de ordem e idolatria nas bocas daqueles que não tem o menor conhecimento do que seja, ou discernimento do que não seja, mas sabem que amam e devem defendê-la. Quando a esquerda se diz democrática, quando progressistas defendem Lula e batem na tecla de “eleito”, ou “julgamento pelas eleições”, estão agindo de acordo com a mentalidade democrata, pela qual o povo deve ser soberano (em teoria) em todas as decisões, se sobrepondo a quaisquer ordenamentos jurídicos, ou usando-se desses para modicar as leis e subverter a ordem.

Quando se afirma que uma pessoa eleita deve estar acima das leis e da justiça, mesmo que roube, corrompa, manda assassinar e seja um revolucionário continental de alta periculosidade e narcoterrorista, se está em perfeita consonância com o que é a democracia, e com a manifestação histórica desta. Por isso, os progressistas incutem no imaginário popular uma ideia de democracia, que não corresponde à verdade, de forma tal que a menor crítica a esta se transforme em polêmica e descambe em acusações de todo tipo (outras palavras de ordem, como ‘fascista’, ‘nazista’, ‘golpista’, ‘extrema-direita’ etc). Em tempo, tanto fascistas como nazistas utilizaram do controle das massas, dentro do sistema democrático, para alcançarem o poder e promover suas “reformas” (Hitler, por exemplo, convocava tantos plebiscitos, que seus adversários não conseguiam se organizar de modo a manterem uma oposição de fato e frearem suas ”reformas democráticas”); a própria ascensão do füher só foi possível graças ao sistema democrático da “República” de Weimar, no qual o partido de maior representatividade tinha direito a indicar um chanceler, mesmo que este não tivesse cadeira no parlamento, e ainda previa que em caso de não haver maioria no congresso, para formação de um “governo representativo”, dever-se-ia haver novas eleições; os nazistas utilizaram desta artimanha até que o governo alemão se viu forçado a capitular e seguir a regra democrática representativa de sua “República”, nomeando Hitler ao cargo que lhe permitiria, a partir de 1929 e, especialmente, de 1933, instaurar seu regime.

Russell Kirk dará ao sistema eleitoral democrático a definição de “uma pessoa, um voto”, ou seja, um sistema no qual cada um possui (em tese) o mesmo peso eleitoral; mas Kirk não ignorava os defeitos graves da democracia e por isso defendeu ardentemente a “prudência” como regra basilar da ação política. Alexis de Tocqueville comete um erro filosófico ao falar sobre ” A Democracia na América”; não que sua análise esteja dissonante com a realidade americana (ao menos, á época), mas o termo democracia não se aplica ao caso americano; inclusive, nas ‘Cartas Federalistas’, os founding fathers americanos John Jay, Alexander Hamilton e James Madison discutem acerca da importância de pensar em um sistema que não resultasse em democracia, por isso, por exemplo, cada estado americano possui um peso diferente nas eleições, contendo uma quantidade de delegados de acordo com densidade populacional, relevância econômica etc, tal qual havia na antiga aristocracia grega e, depois, na romana, com cada tribo tendo um peso eleitoral diferente, em acordo com critérios aristocráticos (tanto os aristocratas gregos quanto os patrícios romanos detinham maior relevância no plano político do que as camadas mais baixas, mas também a êles cabia quase toda a responsabilidade pela proteção e manutenção da sociedade e do estado). Também havia a importância de certas famílias acima das demais, um fenômeno dado principalmente em Roma, pelo menos de forma mais clara, por exemplo, com a dinastia imperial Julio-Cláudia, iniciada com César (em 47 a.C.), da família júlia, incluindo-se a família cláudia a partir do casamento de seu sobrinho-neto Otaviano, depois conhecido por Augustus, com Lívia, uma cláudia, mãe do futuro imperador Tibério e de Druso (filhos de seu casamento anterior).

Os democratas sempre foram os “revolucionários”, que se opuseram às monarquias, à aristocracia e pregavam uma religião centrada nos homens, ao invés de em deuses, ou um Deus. Em Athenas teremos diversos artistas pagos pelo poder constituído, sob o partido democrata, cujas obras buscam uma divinização dos homens, com os deuses ganhando aspecto humano e humanos sendo endeusados, em geral, o grande financiador desse movimento à época (século V a.C.), Péricles (líder democrata e, por consequência, da própria Athenas).

Por falar em Péricles, além de ser o líder do partido democrata, os quais se intitulavam progressistas, tinha seus inimigos no partido conservador, sendo os principais Címon e Tucídides, ambos ostracizados por ele, sendo o primeiro restaurado pelo mesmo para negociar a paz com Esparta, que estava alerta aos desmandos e totalitarismo de Athenas. Péricles também é o responsável por “convencer” (forçar) as demais cidades-estado da Ática e colocar suas riquezas sob a égide de Athenas, para criação e manutenção da famigerada “Liga de Delos”, utilizada como uma Nova Ordem acima das soberanias dessas cidades-estado. Péricles usurpa essa riqueza e a utiliza na fortificação de Athenas contra seus próprios “aliados” (escravos), usando de desculpa uma suposta ameaça espartana.

Qualquer semelhança com a realidade atual, não é mera coincidência. Uma sociedade que renega sua própria história está fadada a repetir os mesmos erros, em um ciclo vicioso que não se romperá e custará cada vez mais vidas inocentes, em cada desfecho.

Roberto Lacerda Barricelli
CEO & Founder do Instituto Visconde de Cairu e Consultor da Editora Libertar. Autor do livro "Em Defesa da Vida" e ativista pró-Vida.

Jornalista e especialista em economia, política e historia (brasileira, do pensamento econômico, política e do totalitarismo). Diretor de Jornalismo na Liga Cristã Mundial.

Estudos avançados em filosofia, principalmente nas escolas Estoica, Grega/Clássica, Romana/Latina, Escolástica, Jusnaturalista, Alemã (idealismo e estética e socialismo científico), Francesa (liberalismo e socialismo utópico), Inglesa (liberalismo, utilitarismo, empirismo, socialismo utópico e contratualismo), Russa (social democracia), Marxismo/Comunismo e Austríaca.

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