Tragédia em Nevada: pare de culpar fantasmas

Domingo, primeiro de outubro de 2017, 22h (horário de Brasília). O mês das bruxas chegou com uma ironia macabra: um atentado em Las Vegas, a cidade dos cassinos, festas e apostas infinitas; aproximadamente 59 mortos e mais de 527 feridos no festival Route 91 Harvest, ao som country de Jason Aldean. Certo momento, outro som invadiu a área da plateia. Um som que lembrava fogos de artifício, e foi se tornando cada vez mais frequente. Eram disparos vindos do hotel-cassino Mandalay Bay, próximo ao local. A multidão finalmente reagiu e tentou fugir dos tiros que vinham da janela do quarto no 32º andar em que estava hospedado o atirador Stephen Paddock, 64 anos, que possivelmente se suicidou pouco antes da chegada dos agentes da polícia no quarto, onde foram achados 10 fuzis com vários acessórios.
O dia foi cheio para a grande imprensa e as redes sociais também. Diversos veículos e noticiários usaram do fato para promover o desarmamento; no Facebook e Twitter, muitas opiniões com um propósito em comum: culpar as armas. Uma das tags, inclusive, utilizada no Twitter nos trending topics foi #guncontrol (controle de armas).

A turma pacifista do “mais amor por favor” insiste em dizer que as armas matam. Estenderam a discussão a partir do fato para dizer o quanto armas são uma ameaça, e que um país como os EUA possui tantos atentados graças a elas, as armas. Mas nota-se um problema básico: armas não matam sozinhas. Surpreso? Como diria o músico e ativista americano, Ted Nugent, “se as armas matam, as minhas estão com defeito”. Portanto, se armas não matam sozinhas (dãr), e estamos dentro da temática de segurança pública, é essencial identificarmos o autor do crime.

Por trás do gatilho

Paddock, de Mesquite, Nevada, estava hospedado desde o dia 28 de setembro no Mandalay Bay e possuía licença para caçar e pescar desde 2010 no estado do Alaska, cujas restrições às armas são bem menores (http://bit.ly/2xYqkDl). Parece que não tinha antecedentes criminais ou problemas psicológicos. Horas depois do atentado, o Estado Islâmico reivindicou a autoria do ataque: o seu Paddock havia se convertido ao islã há poucos meses. No entanto, para a grande imprensa, “não há provas disso” (https://glo.bo/2yFu7Ta), mesmo o próprio EI tendo se manifestado. Nada novo sob a agenda da grande mídia (http://bit.ly/2fMfuG8).

Diante disso, cabe se perguntar: quais os motivos para tal sujeito entrar num hotel bilionário de Vegas com 10 fuzis (tradução para rifles) e acessórios, preparar o armamento na janela e atirar no público do festival? A sua ligação com o islã pode ter a ver algo com isso? Ou vamos manter a ideia de que armas matam sozinhas? A primeira opção dá mais trabalho de apuração. E deu. Ontem à tarde, logo depois das notícias do atentado, fui atualizando informações e buscando se havia ligações do hotel, do cassino e do próprio Paddock.

Primeiro, busquei pelas leis de Nevada quanto à restrição de armas. De fato, a lei é mais leniente para registro, posse e porte aberto – mas está longe de ser a mais leve, como disse o portal Salon (http://bit.ly/2yRIe8T). As leis muito mais leves para porte oculto de todo o país americano são do Arizona, Alaska, Wyoming e Vermont (este que é o estado mais seguro dos EUA, onde adolescentes portam armas). Antes de tudo, vamos definir os termos. Posse é quando você pode registrar sua arma e deixá-la em sua casa, trabalho ou até mesmo clube de tiro (isso também varia de estado para estado, e de arma para arma). No caso de Nevada, apenas as “handguns”, ou seja, armas curtas, podem ser transportadas. Daí que vem o porte. No entanto, o porte ABERTO e a posse não precisam de licença, apenas registro. A restrição de Nevada mais rígida é para o porte oculto.

Na imagem abaixo, retirada do portal americano Metro, é possível ver que apenas armas curtas (revólveres, pistolas, etc.) são permitidas para porte, e aberto.

Já ouviu falar em Gun Free Zones?

O que a grande imprensa não explica (você não achará isso facilmente) é que nesses locais onde ocorrem esses atentados (maioria esmagadora) existe uma política de restrição de armas que denomina os locais de gun free zones (zonas livres de armas). O que isso quer dizer? São zonas proibidas de portar arma. São elas, no caso do estado de Nevada: próximo e dentro de instalações de escolas públicas, faculdades (só com permissão do presidente do local antecipada) ou de instituições com cuidados infantis com creches, e até nos estacionamentos (inclui dentro do carro ou de um cofre, recipiente bloqueado); áreas seguras de aeroporto, edifícios legislativos – essa é a lei estadual.

As leis federais (mais rígidas) proíbem armas de fogo carregadas ou não, transportadas escondido ou abertamente em: instalações federais (tribunais e escritórios), bases militares, parques, propriedades do correio (inclui estacionamento), hospitais, instalações incluindo cemitérios, algumas reservas indígenas.

No entanto, você pode utilizar o “open carry”, que é um tipo de “passe” para entrar numa propriedade privada que possui o aviso “sem armas no local”. No entanto, por políticas próprias desses locais privados, a grande maioria pede que desarme ou saia do local. Essas propriedades são shoppings, bares, lojas e – CASSINOS. Isso mesmo, velhinho. A grande maioria dos cassinos, como diz o próprio site, pede que a pessoa não entre com a arma (que está à mostra). Mas tem um ponto importante: você pode usar o open carry para tentar entrar com sua arma, exceto em escolas privadas e casas noturnas. Nesses locais, nem utilizando a tentativa de entrar.

Lembra-se do local onde estava acontecendo o show de Jason Aldean? Num cassino. Logo, a política do cassino não permitiria que entrassem com arma. Mais que isso. Qual o entendimento jurídico sobre casas noturnas? Boates ou locais que prestam serviços de entretenimentos coletivos à noite – ou seja, shows. Se ocorreu um show naquele cassino, a entrada de armas estava terminantemente proibida. Logo, se o atirador tentasse atirar em alguém, ninguém poderia impedir. Mas nem mesmo ele conseguiria esse feito, a não ser que estivesse longe de lá (como ocorrem nos atentados às escolas – que são gun free zones). Muitos casos de atentados foram impedidos devido ao fato de cidadãos estarem armados, e atirarem logo depois do terrorista começar o ataque, evitando a morte de centenas.

Vejamos o mapa da distância que o atirador estava da plateia. Na foto abaixo, retirada da Revista Veja, é possível deduzir pela lógica – e mais algumas informações soltadas pela mídia – que Paddock planejou todo o ataque bem antes.

Agora vem a parte boa. Dessa distância, ele teria que usar uma automática com precisão. E adivinha? Armas de destruição em massa como essa são absolutamente restritas nos EUA, só para vendedores licenciados, além do porte só ser permitido se forem as fabricadas antes de 1986 e registradas pelo governo federal. Esse porte de armas é proibido nas cidades desde 1986, por uma legislação conhecida aqui como FOPA (Firearm Owners Protection Act.), aprovada por Ronald Reagan. Como ele conseguiu transportar 10 desses fuzis automáticos (muito mais provável do que um semiautomático com adaptador) dentro de um hotel bilionário, pertencente do grupo MGM Resorts Internacional, cujo dono foi o bilionário falecido Kirk Kerkorian, de família armênia que ajudou milhares de cristãos, investindo US$ 1 bilhão na recuperação do holocausto promovido pelo império Turco Otomano (islâmico) entre 1915 e 1922.

Aí o Estado Islâmico reivindica a autoria de um ataque num hotel de uma companhia cujo dono ajudou cristãos e cujas vítimas eram rednecks e conservadores caipiras. Tudo isso deve ser levado em conta antes de afirmar coisas do tipo “a pesquisa da campanha Brady americana diz que 93 americanos morrem pelas armas de fogo por dia nos EUA”. Que dados são esses de números brutos e gerais num país cujo pacto federativo (cada estado, leis diferentes) é fortíssimo? Desse número, quais são as vítimas? E os autores (lembre-se da importância do autor)? E quais armas? Em quais estados? Em quais áreas (lembre-se das gun free zones)? Enfim.

Antes de ser pretensioso e achar que é especialista [de Twitter e Facebook] em segurança pública, estude. E estude muito. Questione sempre.

Desarmamento não é a discussão aqui. Desarmar o cidadão de nada adiantará se os bandidos, ou o maluco do Paddock, conseguem as armas pelo caminho ilegal e de um jeito muito bem arquitetado. Se alguém armado o visse pronto para atirar, certamente impediria o atentado. Como vimos, o buraco é mais embaixo. Tem islamismo na história, tem fatos para analisar e deduzir, leis diferentes que precisam ser interpretadas baseando num entendimento jurídico minimamente básico.

Culpar as armas (abstração) só tira a responsabilidade do criminoso e nos coloca como iguais, sendo que cidadão de bem compra na legalidade, e quem é bandido mata de qualquer jeito, em qualquer lugar. De fuzil, revólver, martelo ou faca. E pode vir de um quarto de hotel.

Tauany Cattan on Facebook
Tauany Cattan
Jornalista (Universidade Presbiteriana Mackenzie - SP). Estudiosa da 'Análise do Discurso' (AD) aplicada à Imprensa e do armamento civil. Curiosa pelas ciências humanas em tempo integral.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *